Sou professor, sou vítima de assédio moral

O governo insiste em não contar integralmente o tempo de serviço “congelado” aos educadores e aos professores. Alguma novidade? Não, claro que não. Acontece que esta é um novela que dura há demasiado tempo, que é demasiado deprimente e que, acima de tudo, tem evoluído de uma forma demasiado hostil para os profissionais da educação e do ensino.

Esta semana ficamos a saber que, com um dia de antecedência,  o governo convocou 10 sindicatos para “relançar” as “negociações”. Como já era previsível, estas “negociações” redundaram em coisa nenhuma. Além disso, ficamos também a saber que o governo só legislará novamente (?!?) sobre o assunto passados os 5 dias que os sindicatos têm para pedir uma reunião extraordinária.

E como é que os educadores e os professores assistem a tudo isto? Como é que reagem a estes episódios do seu quotidiano delirante e degradante? Como sempre, impávidos e serenos.

Tenho uma explicação para esta enorme passividade: os educadores e os professores têm sido vítimas de uma espécie de assédio moral.

Em que é que me sustento para fazer esta afirmação? Li no guia prático para a prevenção e combate ao assédio no trabalho da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia algumas ideias que vão ao encontro do meu pensamento (O movimento #meToo provocou uma onda de indignação global e por isso acredito que muitas empresas e instituições terão um documento semelhante.):

  • Os comportamentos indesejáveis por parte quer de superiores hierárquicos, quer de qualquer trabalhador subordinado, que afetem a dignidade da mulher e do homem no local de trabalho, são inaceitáveis, sendo tais comportamentos passíveis de criar um ambiente intimidador, hostil ou humilhante para a pessoa a que se dirigem. (pág. 2)
  • [O assédio no local de trabalho] É um comportamento indesejado praticado com algum grau de repetição, com o objetivo de atingir a dignidade da pessoa ou criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador. (pág. 3)
  • O assédio é moral quando um/a trabalhador/a está sujeito a atos suscetíveis de sacrificar, humilhar e ameaçar ou diminuir a sua auto estima. (pág. 3)
  • Os atos exercidos pelo assediador originam riscos para a saúde física e mental e, em casos extremos, a perda do posto de trabalho do assediado. (pág. 3)

Ou seja, a minha tese é muito simples. Vivemos numa época em que os educadores e os professores são maltratados, desrespeitados, desvalorizados, por vários setores da sociedade. Pelos seus sindicatos, que nem sempre agem no sentido de defender os interesses dos seus associados. Pelo poder político, seja ele governamental ou partidário, até porque neste momento os professores são/foram instrumentalizados num combate político que opõe o governo à oposição e aos partidos que o apoiam. Por isso parece-me perfeitamente legítimo afirmar que:

Os educadores e os professores têm sido sujeitos a assédio moral, pela repetição de comportamentos indesejáveis, que tem afetado a sua dignidade e diminuído a sua auto estima. De tal forma, que os educadores e os professores trabalham num ambiente intimidador, hostil e humilhante, criado por ação da repetição de comportamentos indesejáveis que lhes originam problemas mentais.

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