Chumbar um aluno custa 6000 euros, ensiná-lo a estudar só 87

A retenção é uma medida “cara e inútil”, diz a presidente do Conselho Nacional de Educação. Outras opções são mais baratas e eficazes.

A cada ano, o chumbo de um aluno custa, em Portugal, cerca de 6000 euros. Esta é, entre as medidas que são usadas para combater o insucesso dos estudantes, a mais cara. É também pouco eficaz e, ao nível das aprendizagens, até faz o aluno regredir. Menos custoso, será ensinar os alunos a estudar, incentivar as tutorias entre as crianças e promover a aprendizagem por objectivos. O impacto dos diferentes tipos de abordagem no combate ao insucesso escolar foi adaptado para Portugal pelos investigadores do Aqeduto — um projecto de investigação para avaliação da qualidade e equidade em educação —, com base em estimativas feitas pela Education Endowment Foundation, uma organização independente inglesa criada em 2011 com o objectivo de promover as aprendizagens dos alunos mais carenciados.
Ensinar a estudar, dando feedback aos alunos sobre o seu desempenho em relação aos objectivos de aprendizagem estabelecidos, é a medida que tem um efeito mais positivo. Também está entre as mais baratas (87 euros). Aplicando-se estas práticas, os alunos ganham oito meses de progressos nas aprendizagens. É o que permite concluir a meta-análise de vários estudos internacionais (também feito pela Education Endowment Foundation e adaptado pelo Aqeduto) sobre os meses de aprendizagem que se ganham ou perdem com cada uma destas medidas em relação ao ano anterior à sua aplicação.
Entre as medidas que mais encargos representam surgem também as intervenções no pré-escolar, ou seja, promover aprendizagens estruturadas antes da entrada na escolaridade obrigatória. Custa cerca de 4389 euros. Promover o envolvimento e apoio dos pais também não é barato: cerca de 2633 euros. Já garantir o acompanhamento social e emocional das crianças representa um custo de 1755 euros por aluno a cada ano. Mas, apesar do custo, o impacto que estas medidas têm no sucesso escolar é positivo.
A retenção é a única, entre o conjunto de medidas estudadas, que tem um impacto negativo. Há um retrocesso estimado de quatro meses nas aprendizagens dos estudantes.

Há menos retenções

Em Portugal, “estamos a melhorar muito [os números da retenção]”, nota Maria Emília Brederode, presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE). No relatório que se intitula Estado da Educação 2017, que o CNE vai apresentar esta quarta-feira, em Lisboa, os números revelam que a taxa de retenção é a mais baixa da década em todos os ciclos de ensino.
Mesmo assim, é um processo que “está a demorar”. Para a presidente do CNE, que considera a retenção uma medida “cara e inútil”, há um “facilitismo” associado ao acto de chumbar. De facto, “dá mais trabalho se formos ver onde estão as dificuldades, que outras maneiras existem de organizar as escolas e a aprendizagem”, comenta. “Reduzir as retenções obriga-nos a repensar a maneira de intervir.
Quanto à distribuição geográfica deste indicador, não há uniformidade ao longo do território. O Alto Tâmega e o Baixo Alentejo estão entre os lugares cimeiros em quase todos os anos de escolaridade. Regiões como o Alto Minho ou a Região de Leiria apresentam algumas das taxas de retenção mais baixas.
O 2.º ano apresenta números de retenção particularmente elevados. Em 2016/2017, 7,4% das crianças neste ano de escolaridade chumbaram. O mesmo aconteceu para os anos de transição de ciclo, como o 7.º (11,4%) e o 9.º (7%). Quando se analisa as idades dos alunos e se avalia a sua adequação com o ciclo de estudos que frequentam “subsiste um desfasamento que vai tomando maiores proporções à medida que se avança na idade e escolaridade”, lê-se no estudo do CNE. “Logo a partir do 1.º ciclo uma significativa percentagem de alunos apresenta um desfasamento etário de dois ou mais anos, que se vai acumulando ao longo dos três ciclos do ensino básico.”
Os números, diz a presidente do CNE, “chamam a atenção por mostrarem que é o próprio sistema de ensino que está desadequado”. Nesse sentido, sugere que seria benéfico repensar a organização dos ciclos de ensino. “Não temos uma proposta concreta, mas já houve várias”, nota. “A principal, e que é mais comum, é juntar estes dois anos [5.º e 6.º] ao primeiro ciclo.”

Avaliar a equidade

Uma novidade neste relatório é o capítulo exclusivamente dedicado à equidade na educação. Porquê focar neste tema? “É uma das dimensões essenciais de avaliação de um sistema educativo” e foi a forma encontrada de dar “importância àquilo que é feito”. Nesse sentido, o CNE fez um balanço dos programas que existem para fomentar a igualdade.
Um dos exemplos é o “Apoio mais — retenção zero”. Diz o CNE que, em 2016/2017, foram abrangidos os alunos do 8.º ano da Escola Básica Integrada de Ponta Garça, em São Miguel, e os do 6.º da Escola Básica e Secundária da Graciosa, ambas nos Açores. Durante este período foram aplicadas estratégias pedagógicas “inovadoras” (que o relatório não enumera) no âmbito das práticas, gestão de percursos escolares e apoio aos alunos. Resultado: todos os estudantes do 8.º passaram para o 9.º na escola de São Miguel. E 93% daqueles que estavam no 6.º na Graciosa transitaram para o ano seguinte.
Outro dado positivo que o relatório apresenta: nas 663 unidades orgânicas que integram o Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar (PNPSE) registou-se uma descida da taxa de retenção e desistência do ensino básico entre 2015/2016 e 2016/2017, especialmente no 9.º ano (menos 2,4 pontos percentuais). O efeito deste programa também foi particularmente positivo no 2.º e 7.º ano, em que se registou um decréscimo de 1,8 e 1,7 pontos percentuais na taxa de retenção. A redução menos significativa aconteceu no 3.º e no 4.º ano.
A rede PNPSE cobre 82% do território nacional. Este programa foi lançado pela actual tutela e começou a ser aplicado em 2017. No âmbito deste plano as escolas elaboraram estratégias com vista à melhoria das aprendizagens principalmente nos anos iniciais de ciclo, que foram depois aprovados pelo ministério com vista ao reforço de meios para aplicar estas medidas. Foram abrangidos mais de 300 mil alunos dos vários ciclos.
In Público, Rita Marques Costa, 21 de Novembro de 2018

Sonhar acordado

Muitos alunos sonham acordados. Ou porque o professor tem uma voz monótona, ou porque ou tema é enfadonho, ou porque está um lindo dia lá fora. Enfim, muito se especula sobre as causas desta fatalidade… No entanto, quando a mente dos alunos se teletransporta para outra dimensão, ou para outro planeta, a sua capacidade de aprender está irremediavelmente comprometida.

Numa investigação realizada por Lindquist e McLean (1), entre 25% e 44% dos sujeitos que participaram na experiência sonhavam acordados. Numa outra investigação conduzida por Risko et al (2), estes números subiram para 35% e 52% quando os participantes assistiam a palestras gravadas.

Naquele que é um clássico, Johnstone e Percival (3) verificaram que as primeiras quebras de atenção dos alunos observados em sala de aula ocorreram depois de 10 a 18 minutos. E que o nível de desatenção aumentava a cada 3-4 minutos!

O que fazer? Em teoria, ainda não muitas evidências nesta área, a palavra de ordem é diversificar. À partida, a concentração dos alunos melhora com a realização de tarefas diversificadas.

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(1) Lindquist, S. I., & McLean, J. P. (2011). Daydreaming and its correlates in an educational environment. Learning and Individual Differences, 21, 158 – 167.

(2) Risko, E. F., Anderson, N., Sarwal, A., Engelhardt, M., and Kingstone, A. (2012). Everyday attention: variation in mind wandering and memory in a lecture. Appl. Cogn. Psychol. 26, 234–242. doi: 10.1002/acp.1814

(3) Johnstone,  A.  H.,  and  Percival,  F. (1976). Attention breaks in lectures. Educ. Chem. 13, 49–50.

Melhoria das práticas letivas dos professores

Multi-Store Model of Memory by Matteo Farinella
O entendimento que os professores têm acerca do funcionamento da memória poderá servir à melhoria das suas práticas letivas?
  1. Uma aprendizagem é significativa quando os alunos relacionam novos conhecimentos com os conhecimentos que já existem na sua memória, os conhecimentos prévios.
  2. Quanto mais os alunos processarem e pensarem nos conhecimentos adquiridos, mais duradouras e recuperáveis as memórias serão. Isto, geralmente, envolve um diálogo entre a memória de curto prazo e a memória de longo prazo. Ou seja, têm de pensar para aprender, têm de processar de forma ativa e consciente as novas informações, ou as novas experiências.
  3. Se não se verificarem os dois pontos anteriores, os alunos podem estar muito atentos nas aulas, trabalhar muito, mas as suas aprendizagens serão pouco significativas. Os novos conhecimentos não serão armazenados de forma duradoura na memória de longo prazo. E pior, não poderão ser usados mais tarde, principalmente fora do contexto da sala de aula.
  4. De acordo com este modelo, a memória de curto prazo desempenha um papel muito importante. No entanto, ela é limitada, no tempo e na capacidade, o que condiciona naturalmente as aprendizagens.
Ao longo do processo que nos permite criar novas memórias, a memória de trabalho desempenha um papel fundamental. É na memória de trabalho que ocorrem os pensamentos, as tomadas de decisão. É aqui que se desenvolvem os processos que permitem resolver problemas, que o raciocínio se elabora. Em última instância, é onde atribuímos significado ao mundo que nos rodeia.
A memória de trabalho tem uma capacidade reduzida, ainda mais reduzida que a memória de curto prazo, apesar de poder ser ampliada se recorrermos à memória de longo prazo. Assim, é fundamental que os alunos sejam capazes de processar informações na memória de trabalho, de maneira eficiente, sem ultrapassar a sua capacidade.
O que nos leva ao conceito de carga cognitiva: quantidade total de atividade mental imposta à memória de trabalho, em qualquer instante.